É artista, mas também é esperto. [entrevista com @LucasNinno]

[vitor b. torres teixeira – entrevistador]

“90% da minha formação aconteceu pela web. Existe muito conteúdo livre de qualidade boiando nesse mar digital. A internet não só facilita, mas também acelera o processo de aprendizagem.” Lucas Ninno.

“Dizem para não publicar no Flickr, ou para disponibilizar imagens minúsculas, porque de acordo com eles as pessoas vão se aproveitar de fotos em alta resolução. Quem pensa assim está perdendo conhecimento, mercado e muitas oportunidades.” Lucas Ninno.

O primeiro encontro que tive com Ninno foi há anos atrás, no MISC – Museu da Imagem e do Som de Cuiabá. Tínhamos amigos em comum. Ele me foi apresentado como Ilustrador. Trocamos algumas palavras e acho até que vi uns desenhos dele.

Um tempo depois, e ainda há alguns anos atrás, reencontrei Ninno na UFMT. Eu, já eterno veterano, e ele, calouro de jornalismo. Dessa vez, Ninno me foi apresentado como músico e produtor de áudio. Me disseram que seu nome era Lucas.

Ele tinha uma banda e até fez um certo sucesso nos corredores do IL – Instituto de Linguagens que abriga o Curso de Comunicação onde estudávamos. Acho até que fui para alguns shows dessa banda.

Um dia, Lucas Ninno foi para o Chile. Por lá, montou um blog e registrou suas impressões da viagem. Os textos eram ótimos e descobri que Ninno também era escritor (já era há algum tempo, eu que não sabia).

Na passagem pelo Chile, além de palavras, Ninno utilizou da fotografia para nos mostrar detalhes de sua experiência. Lindas imagens. O blog me apresentou o Ninno fotógrafo.

“Fato é que a abrangência é infinitamente maior que o meio impresso, já me surpreendi com fotos minhas em CC (Creative Commons) publicadas em blogs do Japão e do Canadá. É um retorno importantíssimo falando de mercado, pois significa que existe espaço pro meu trabalho nesses países.” Lucas Ninno.

“O cara posta uma foto de uma criança sendo retirada de escombros e outro fotógrafo comenta: “ah, você deveria ter usado um flash em potência 1/32 com uma hazelight do lado direito”. Alguns profissionais parecem tornar-se frios…” Lucas Ninno.

Ninno é inquieto, criativo e só faz o que gosta. Por isso, faz bem feito. Soube aproveitar a habilidade que tinha com traços, sons e palavras, para ler o mundo.

Recentemente, foi premiado num grande concurso de fotografia latino americana, e viu seus trabalhos circulando pela rede, ganhando merecidos elogios e estrondosa visibilidade.

Conversei com Ninno sobre fotografia digital, internet, livre distribuição e ele mostrou estar um passo a frente. Já entendeu e aproveita a rede para crescer, aprender e ganhar destaque. É artista, mas também é esperto.

CLIQUE AQUI EMBAIXO E LEIA A ENTREVISTA INTEIRA:

 

vitor :: A fotografia analógica já tinha/tem uma dinâmica, tratando-se do último estágio, o de exposição, muito bem definida: a impressão, o tipo de papel, os salões de exposição… a digital ainda não tem essa dinâmica bem estruturada: pode-se ver uma foto em casa, no escritório, em todos os tamanhos e brilhos de tela, em celulares e tablets, no albúm do Orkut ou numa coleção de fotos premiadas num jornal peruano. E o fotógrafo com isso?

ninno :: Bem, a discussão fotografia analógica x fotografia digital está presente no dia-a-dia de quase todos que estudam ou trabalham com imagens. Eu comecei a fotografar digitalmente e só depois fui me interessar pelas câmeras analógicas, mas posso dizer que é uma discussão um tanto desnecessária, pois o princípio da fotografia é o mesmo nos dois processos. A única diferença das câmeras digitais para as câmeras analógicas é que na digital em vez de um filme com a famosa solução química de prata, você tem um sensor, que transforma a luz capturada em informação binária. O conhecimento que o fotógrafo da era digital precisa ter para produzir uma foto, é exatamente o mesmo que os veteranos da época do negativo precisavam.

O que realmente muda – e isso é claro para os profissionais do meio – é o processo de comercialização e distribuição desse conteúdo. Tem muita gente por aí roendo as unhas de raiva porque perdeu mercado, botando a culpa na fotografia digital. Bem, como em toda revolução, quem não acompanha as mudanças acaba ficando pra trás. Quem se recusa a ter um flickr, um site, quem não está no Google, não existe perante essa grande parcela do mundo que busca conteúdo na web.

Ainda topo com muito fotógrafo das antigas – e até mesmo com profissionais mais jovens – que me dizem para não publicar no Flickr, ou para disponibilizar imagens minúsculas, porque de acordo com eles as pessoas vão se aproveitar de fotos em alta resolução. Quem pensa assim está perdendo conhecimento, mercado e muitas oportunidades. Por exemplo, a foto que me premiou no POYi Latino America foi disponibilizada em alta resolução sobre o selo Creative Commons (atribuição não comercial). No outro dia, um canal de TV fez uma nota sobre a minha premiação e já baixou a foto, que foi ao ar sem que eles nem precisassem me contactar. Qual o meu prejuízo com isso? Nenhum! Nunca tive tantas oportunidades de trabalho como agora, que utilizo a internet e os meios sociais para divulgar meu material. Só que as pessoas precisam entender que a web é bastante sincera e também pode ser cruel. Trabalhos bons serão divulgados e trabalhos ruins serão condenados. Por isso, poste só o que você faz de melhor.

Você posta suas fotos no Orkut, Facebook, Twitter, Flickr…. seus perfis nestes sites são estritamente profissionais ou também são de uso pessoal? Faz diferença? Quais canais vc usa pra distribuir/mostrar suas fotos?

Utilizo os perfis de rede social das duas maneiras, tanto profissionalmente como pessoalmente. Acho isso muito bacana, pois elimina aquela barreira fria que o contato estritamente profissional acaba criando. Quem vem falar comigo me encara como uma pessoa, de carne e osso, que fala sem aquele palavreado de ofício. Quando dou um reply no Twitter para alguém, por exemplo, pode ser tanto para fechar um trabalho futuro quanto para marcar um almoço. Eu acho isso muito legal, pois humaniza as empresas e os profissionais. Ser humano não é falta de profissionalismo, mas sim tornar-se real para as pessoas, mesmo estando no mundo virtual.

Utilizo vários canais para divulgar meu material. Os principais são Flickr, Twitter e Facebook. Além deles subo algumas fotos no Orkut, que está mais prá lá do que pra cá e também sou membro de redes sociais destinadas a fotógrafos como o Digiforum e a rede latinoamericana Nuestra Mirada.

Qual o alcance tem suas fotos quando distribuídas em sites de redes sociais? Quem acessa essas fotos? Você monitora/controla essa circulação? Até onde suas fotografias já chegaram?

Teoricamente o alcance é mundial, mas sabemos que mesmo na rede global de computadores existem algumas “estradas virtuais” que os conteúdos percorrem. Isso pra mim ainda é um pouco misterioso, tenho que estudar mais. Mas o fato é que a abrangência é infinitamente maior que o meio impresso, já me surpreendi com fotos minhas em CC (Creative Commons) publicadas em blogs do Japão e do Canadá. É um retorno importantíssimo falando de mercado, pois significa que existe espaço pro meu trabalho nesses países.

Falando de pontos globais de acesso, o caso da fotografia é muito legal e é bem parecido com a situação da música instrumental. Como são manifestações artísticas que não dependem de um idioma, nosso trabalho pode ser apreciado em qualquer canto do mundo. Assim como a música instrumental, a fotografia aumentou seu alcance depois da popularização da web. É claro que trata-se de um público específico e limitado, pois a web ainda está longe de ser acessível para toda a população mundial. Mas acredito que devagar chegaremos lá. E a difusão cultural, seja da fotografia, dá música ou outras formas de expressão, só tem a ganhar com isso.

Aproveitando, vamos falar de direito autoral… Caetano escreveu sobre musicas baixadas na net esses dias – “A internet que se vire…” disse ele, ” ninguém toca em nenhum centavo do meu direito…”. Como você lê a situação do direito autoral no Brasil e distribuição de conteúdo na web?

As críticas feitas ao Creative Commons e a ira de profissionais antigos a respeito do direito autoral tem muito mais a ver com a parte econômica desse direito. As pessoas ainda não entenderam que a forma de lucrar com suas obras mudou depois da popularização da internet. Não é mais viável fazer uma foto ou compor uma música e ficar 30 anos faturando através dessa obra, como acontecia antigamente. Hoje o músico ganha com shows e publicidade e o fotógrafo ganha com os trabalhos para que é contratado. Não significa que estamos lucrando menos, mas que o dinheiro deixou de vir por um lado para aparecer em outro. Por exemplo, eu faço uma foto e upo ela para o Flickr. Ganho dinheiro com isso? Não diretamente. Mas se aquela foto é boa e chama atenção dos internautas, provavelmente abrirá portas para novos clientes, o que me trará o dinheiro. Acontece que boa parte das pessoas faz vista grossa para essa mudança e não busca reinventar seu modelo econômico. A nossa preguiça tenta convencer de que é sempre mais fácil reclamar dos outros do que mudar a nós mesmos. A questão do direito autoral é um grande exemplo.

Você usa muito o Flickr, né? Qual a dinâmica de relacionamento nesse ambiente, quando se trata de alguém, como você, que é profissional?

A mesma dinâmica de quem não trabalha com fotografia. No Flickr isso não existe, ali tem gente muito boa que não ganha o pão de cada dia com fotografia, mas arrebenta na produção de imagens. A parte legal é que o contato entre profissionais e amadores (deixando claro que esses termos nada tem a ver com a qualidade do trabalho) se torna muito humano, muito próximo e real. Uma vez, quando comecei a trabalhar com fotojornalismo, enviei uma mensagem a um fotógrafo do flickr apelidado de Kathião. Me impressionei com a foto de um traficante que apontava um revólver na direção da câmera. O Kathião me respondeu contando toda a história por trás da produção daquela imagem e isso contribuiu muito para meu aprendizado de aproximação das pessoas, que é uma das partes mais difíceis na fotografia. Sem a pessoalidade da internet, como é que eu faria isso? Encontraria o endereço do cara e mandaria uma carta? Acho que não né.

E outras redes mais nichadas, tipo fóruns, vc usa quais? Quais as dinâmicas?

Uso menos. Eu sinto um clima estranho nos fóruns brasileiros de fotografia, como o Digiforum. Primeiro noto discussões excessivas e desgastantes a respeito de equipamentos. Parece que ninguém se importa com a função simbólica da fotografia, que é o verdadeiro motivo de sua existência. O cara posta uma foto de uma criança sendo retirada de escombros e outro fotógrafo comenta: “ah, você deveria ter usado um flash em potência 1/32 com uma hazelight do lado direito”. Alguns profissionais parecem tornar-se frios depois de um tempo de carreira. Depois, noto que o brasileiro tem mesmo a tal síndrome de vira lata. Isso é nítido em fóruns na web. Aqui ou o cidadão pensa que nunca irá conseguir seu espaço com seu trabalho e sua arte, ou fica se achando o próprio Cartier Bresson, o mais alto pedigree, só por publicar suas fotos em alguma revista nacional. Isso precisa acabar. Fotografia é arte mas é estudo. Um bom fotógrafo chega onde chega por sua bagagem cultural, sua história de vida, seus pensamentos, atitudes e sua fome de estudar. Steve McCurry, por exemplo é o que é por possuir esses méritos que citei e não por ser uma espécie de iluminado divino. O que rola nos fóruns é uma guerrinha besta onde um tenta ser melhor que o outro. Em vez de juntar forças para fortalecer a fotografia brasileira o pensamento egoísta faz cada um puxar a sardinha para si.

Como e com quanta intensidade a internet contribuiu para seu processo de aprendizagem?

Do ponto de vista técnico, digo que 90% da minha formação aconteceu pela web. Existe muito conteúdo livre de qualidade boiando nesse mar digital. A internet não só facilita, mas também acelera o processo de aprendizagem. Digite “profundidade de campo” no google e veja se encontra algo. Agora tente pesquisar a mesma coisa em uma biblioteca pública. Depois me diga quanto tempo gastou em cada um dos processos de pesquisa. Eu já sei a resposta! Haha.

No meu caso, tem ainda uma outra vantagem. Nunca tive muita grana pra investir em cursos, só agora a coisa está melhorando, porque as pessoas estão divulgando meu nome e assim os trabalhos estão aparecendo mais. Foi com o conteúdo gratuito da internet que aprendi quase tudo o que sei. Sem a web eu não seria fotógrafo, digo isso com certeza absoluta. Além disso, moro em Cuiabá, uma cidade distante dos grandes centros e que carece de equipamentos, livros e lojas especializadas em fotografia. Todo o material que precisei foi adquirido pela internet também. Portanto voltamos a discussão do direito autoral. A web é livre e beneficia muita gente que não teria como se desenvolver sem ela. Disponibilizar minhas fotos também é uma forma de agradecer tudo que a internet fez por mim.

O que ainda vai acontecer com a fotografia digital?!

Não tenho bola de cristal, mas meu palpite é que vamos viver – se é que já não vivemos – o século da imagem. A fotografia é o maior sinônimo da cultura globalizada, já que independe de idioma para ser compreendida. A tecnologia digital permitiu a popularização, que apesar de banalizar a produção fotográfica, também abriu oportunidades para aqueles menos favorecidos. Hoje, todo mundo pode ter seu  espaço no mercado, em qualquer parte do mundo. Nunca a qualidade do trabalho de um fotógrafo foi tão importante, já que é preciso ser bom para se destacar entre tantos concorrentes que a era digital adicionou ao mercado de trabalho. Isso deixa alguns com raiva e outros bem alegres, mas é isso que acontece em toda revolução. Na digital não seria diferente.

 

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  1. 2 de abril de 2011

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